Água de Beber

Dique Potrerillos, cortesía de Carlos Peralta

Dique Potrerillos, cortesía de Carlos Peralta

 Água no deserto… Miragem? É não! Água mesmo!

Bem-vindos a Mendoza, cidade milagrosa que sobrevive contra as condições dadas pela natureza. Como assim?

Vamos responder com mais perguntas:

De onde vem a água que dá vida aos vinhedos que dão alma aos deliciosos Malbecs que vocês tanto adoram?

Mendoza é um semi-deserto com escassos 250 milímetros de chuva anuais: o sol se sente na pele, o ar é fresquinho e limpo, e a sequidão deixa a pele e os lábios como lixa… Até olhos ficam ressecados.

Por quê? Estamos muito perto do Oceano Pacífico, mas temos uma barreira natural, que é a Cordilheira dos Andes. Estes gigantes não deixam passar a umidade; pegam toda pra eles! Por causa disto, em Mendoza quase não chove. Cidade com cidadãos sem guarda-chuva, nem botas de borracha. As pessoas não querem fazer nada quando chove. Alguns pais não mandam os seus filhos pra escola, e os condutores gostariam que o carro entrasse nas casas pelas portas, assim não se molhariam por um segundo…

E mesmo assim, quase sem chuva, é uma das cidades com mais árvores do país! Isso é bem interessante… Como assim?

A história começa muito tempo atrás, com os Huarpes, donos destas terras que usavam a água do degelo para suas plantações. Criaram o sistema de “acéquias”: canais que carregam água de degelo que desce dos Andes. Graças a isto, os Huarpes tinham água e conseguiam morar nas terras que hoje conhecemos com o nome de Mendoza.

Logo chegaram os espanhóis, mas o sistema se aperfeiçoou consideravelmente com a chegada dos imigrantes europeus; a fins do s. XIX – começos do XX.

Você passa pelo dique Cipoletti, o primeiro que a província teve, no ano 1890, e pode ver uma estatua de Cesar Cipoletti, italiano que foi trazido pelo governo de Mendoza para construir um dique que contivesse a água de degelo, para poder derivá-la pros cultivos. A idéia era incentivar a plantação de vinhedos, o que ajudou a que o vinho virasse indústria. Além do Cipoletti, temos muitos diques que pegam a água dos rios de montanha, rios caudalosos somente no verão, quando a neve e os glaciares derretem… Alguns são só derivadores, e outros geram energia elétrica. Indo pro Chile, no passeio chamado Andes ou Alta Montanha, passamos pelo dique Potrerillos, onde da pra fazer windsurfe e esportes sem motor pra não sujar a água. E no sul da província, em San Rafael, temos o Valle Grande. Estes são dois exemplos de diques que viraram atrações turísticas. Imagina um espelho de água cristalina gigante entre o árido da montanha… É um espetáculo para não perder. Quando você chega em Mendoza, não pode evitar notar estas acéquias em cada rua. Você vai cruzar a rua, e além de olhar pros lados procurando que nenhum carro bata em você, tem que olhar pro chão, para este canal; pequeno rio urbano. Então temos, atravessando a rua de uma calçada pra outra: calçada, acéquia, rua, acéquia, calçada. É muito fácil cair nelas quando não se sabe da sua existência! Armadilha para turistas, alguém disse…

Acéquia

Acéquia

Então, contrário as condições dadas pela natureza Mendoza é verde, graças a esta água que é tão bem administrada, e graças às pessoas que decidiram plantar tantas arvores em cada rua.

E falando dos vinhedos…como funciona este método de irrigação?

aguadebeber cortesia vinicola altavista

Lembrem que os vinhedos não precisam muita água, mas mesmo assim, os 250 mm de chuva que temos aqui não são suficientes, já que eles precisam ao redor de 800 mm!

Bom, o direito à irrigação existe porque não há suficiente água para plantar onde se queira. Este direito já vem com a terra. Se você compra terra que não o tem, o mais provável é que nunca o consiga e as terras sejam áridas. Cuidado! Talvez por isso essa terra não custe muito dinheiro. Terras boas só para jogar futebol.

Você tem que pagar este direito à água, para não perdê-lo. E dispõe da água em momentos específicos; dias já marcados pelo governo através do Departamento de Irrigação (a polícia da água).

Falando das terras com vinhedo: as acéquias principais (lembrem: canais que levam a água do degelo para as plantas) são compartilhadas com os vizinhos. Isto quer dizer que talvez a acéquia que passa pelo seu vinhedo tem água, mas não é pra você usar… Tem que deixar passar pro vizinho, rua abaixo. Se você pega quando não deve, o vizinho vai ficar sabendo, porque vai receber menos água, então a polícia da água faz você pagar multa (e nunca mais poderá pedir uma xicrinha de açúcar pro vizinho… se somos sérios com alguma coisa em Mendoza, é com a água).

Quando for sua vez de usar a água, se abrem umas comportas que deixam a água entrar na propriedade, e se inunda a plantação de um jeito ordenado. Para isto temos o “tomero”: a pessoa que é encarregada de abrir as tomas (comportas) pra que a água chegue a cada cantinho das videiras.

Este seria o sistema mais antigo, chamado de irrigação por inundação ou manto. Ele é muito bom porque a água, num solo composto principalmente por pedras e areia escorrega rápido, forçando às raízes a descer metros embaixo da terra, e dando plantas mais estáveis. O ruim da irrigação por inundação é que se gasta muita água, já que a planta não precisa tanta, e o que não é absorvido se perde em forma de evaporação.

Cortesia vinícola Kaiken

Irrigação por manto o inundação, cortesía de Vinícola Kaiken

Mas este não é o único jeito de irrigar. O método mais novo vem de Israel: irrigação por gotejamento. Em Mendoza começamos usar na década de 90. Para isto, cada propriedade precisa de uma pequena lagoa artificial onde guardar a água que vem das acéquias. E daí, se bombeia para as plantas, poupando assim muita água, já que usamos a quantidade justa. Claro que as raízes não vão tão profundas porque a água elas recebem só na superfície, gota por gota. Este método é caro, mas muito efetivo.

Irrigação por gotejamento cortesia de vinicola renacer

Irrigação por gotejamento , cortesia de  Vinícola Renacer

Lembrem que na Argentina as quatro estações são muito marcadas, e por isso o vinhedo dá uva uma vez no ano, durante o outono. Ele não precisa muita água para sobreviver: no inverno quase nada porque a seiva desce pras raízes e a planta dorme – nesta época se poda. Primavera y verão: muita água, já que a planta acorda do letargo e precisa criar ramas, folhas e cachos. E uma semana antes da colheita, já no outono, se faz a planta sofrer do estresse hídrico: não se irriga, para que a fruta esteja muito concentrada (o que dá vinhos mais concentrados também).

Irrigação por melga, Cortesía de vinícola Ruca Malen

Irrigação por melga, Cortesía de vinícola Ruca Malen

Tomara que tenham gostado desta história de como a água, sempre sagrada, transforma-se em água de beber de uma cor violácea, sagrada também, amada por todos nos, filha da natureza, da química com o sol, a terra, o homem e o seu trabalho… Quem diz que vinho faz mal, não sabe do que está falando…

Água de beber, camará!

Por: María Victoria Mermoz

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3 Respostas para “Água de Beber

  1. Fantástica sua matéria. Os Mendocinos dão um exemplo em acreditar que tudo é possível. Basta querer e acreditar no que faz. Quem diria que uma terra deserta, semiárida poderia dar excelentes frutos e vida as espaldeiras que produzem o melhor Malbec do mundo. Mendoza é uma cidade linda, limpa e boa de se viver, principalmente pela amabilidade de seu povo.

  2. Fantástica sua matéria. Os Mendocinos dão um exemplo em acreditar que tudo é possível. Basta querer e acreditar no que faz. Quem diria que uma terra deserta, semiárida poderia dar excelentes frutos e vida as espaldeiras que produzem o melhor Malbec do mundo. Mendoza é uma cidade linda, limpa e boa de se viver, principalmente pela amabilidade de seu povo.

  3. No quesito produzir com qualidade em meio ao deserto, sempre admirei os israelitas e não sabia que Mendocinos também eram bons nessa arte. Valeu Lidiane, bela matéria, além de enriquecer conhecimentos.

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